Um continente de idiotas
Carlos Alberto Montaner
Carlos
Alberto Montaner é mais um crítico ferrenho da esquerda latino-americana a
participar do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. O jornalista
cubano, co-autor do célebre Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, vai
falar no Salão de Atos da UFRGS na próxima terça-feira
Por Gabriel Brust
Publicado no jornal Zero Hora em 06/10/07
www.zerohora.com.br
O
jornalista cubano Carlos Alberto Montaner é um dos autores do best-seller
Manual do Perfeito Idiota Latino-americano (1997), escrito com a colaboração
de Plinio Apuleyo Mendoza e de Álvaro Vargas Llosa. Para alguns de seus
críticos, no entanto, Montaner freqüentemente assume o papel do perfeito
idiota neoliberal latino-americano. Em um continente em que a disputa
política ainda existe porque nem mesmo os problemas básicos foram resolvidos
- como descreveu o norte-americano Jon Lee Anderson em sua passagem por
Porto Alegre - , a polarização entre esquerdistas e liberais faz com que o
título de perfeito idiota caiba bem a qualquer um, dependendo do ponto de
vista.
Apesar do bom humor com que retratou as concepções antiquadas de política
que volta e meia afloram na América Latina, Montaner também consegue
demonstrar seu radicalismo liberal quando quer. Para ele, a simples remoção
de Hugo Chávez e Evo Morales do poder já colocaria seus países em um rumo de
desenvolvimento. Ignora as décadas de atraso a que a elite industrial
venezuelana, por exemplo, condenou o seu país antes da ascensão de Chávez.
Montaner é o criador da União Liberal Cubana (ULC) e vice-presidente da
Internacional Liberal desde 1992. Foi classificado como um dos colunistas
mais influentes da língua espanhola pela revista Poder. Nascido em Havana em
1943, exilou-se em Madri ao escapar da prisão por ter participado de
manifestações estudantis aos 18 anos. Após concluir o mestrado na University
of Miami, Montaner lecionou Literatura Latino-americana na Interamerican
University (Porto Rico), no final da década de 60.
Para o escritor, os latinos vivem sob uma cultura voltada ao que não mais
existe, ao mesmo tempo em que a Europa central e anglo-saxônica se posiciona
para o futuro. Em Porto Alegre, ele vai falar sob o tema "América Latina:
caminhos para a modernização e para a democracia". Conversou com ZH por
telefone, de Miami - cidade onde passa a maior pare de seu tempo quando não
está em Madri.
Gabriel Brust
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Para não ficar boiando |
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O livro Manual do Perfeito Idiota Latino-americano (Editora
Bretrand, 364 páginas, R$ 50 em média), escrito em colaboração
com o colombiano Plínio Apuleyo Mendoza e com o peruano Álvaro
Vargas Llosa - todos acusados de "marxistas arrependidos" - ,
analisa com humor a mitologia dos nacional-populistas e
esquerdistas da América Latina. No prefácio, Mario Vargas Llosa
diz que a obra pertence a uma riquíssima tradição cujos mestres
são Pascal e Voltaire, e que, no mundo contemporâneo, tem
Sartre, Camus e Revel como representantes - a tradição do
panfleto. Os três autores buscam o confronto intelectual,
movendo-se no plano das idéias e das anedotas. |
"A democracia liberal acabará se impondo"
Entrevista: Carlos Alberto Montaner, jornalista
Cultura - O senhor diz que Espanha e Portugal foram potências
excêntricas, mas que aceitaram a condição de países ocidentais. Em sua
interpretação, a América Latina segue também neste rumo de abandonar a
excentricidade, no que diz respeito à política?
Carlos Alberto Montaner -
Para poder se desenvolver e competir no Ocidente, a América Latina precisa
abandonar a idéia de que há algo diferente ao Ocidente e incorporar-se, como
fizeram Espanha e Portugal, ao mundo ocidental. Assim como faz o Chile, de
alguma forma, e como fez Argentina durante muito tempo, antes de perder o
rumo. O pior caminho para o desenvolvimento é tentar fazer algo diferente do
que fazem Holanda, Dinamarca e os demais países ocidentais. É preciso
integrar-se a esse mundo com grande firmeza.
Cultura - Qual a principal explicação para o apego da política
latino-americana a formas antigas?
Montaner - Tem a ver com uma velha tradição, no Brasil, no México e, de
alguma maneira, na Venezuela, de apego ao positivismo. No Brasil e no México
foi muito forte. A tradição positivista se prolongou. O que era uma
especulação filosófica se converteu num modo de governo, e esse modo
implicava que o Estado seria o poder diretor essencial na criação da riqueza
e das condições para que as pessoas sejam felizes. Isso tem conseqüências
muito graves, porque sobre essa tradição se montam quase que imediatamente o
socialismo, o fascismo, o militarismo... todas as variantes
antidemocráticas, que são contrárias à essência republicana. Há uma
expressão do Alan Greenspan (economista norte-americano), usada em seu livro
de memórias, na parte sobre a América Latina, que é "inércia ideológica".
Isso nos leva a repetir o mesmo horror, buscando o desenvolvimento não como
conseqüência da ação das empresas privadas, mas como conseqüência das
decisões do Estado. E isso é muito grave porque já sabemos para onde conduz.
Cultura - O positivismo é então uma herança maldita?
Montaner - A origem dele é francesa, mas lá não tomou conta. Comte
(Auguste Comte, filósofo francês fundador do positivismo) inclusive foi
recluso a um manicômio na França. Mas na América tomamos ele muito a sério.
Acontece que as pessoas já nem lembram o que foi o positivismo. As maneiras
de entender as relações entre a sociedade e o Estado se encaixam nesta
época. E sobre essa tradição se montam o resto do socialismo, de esquerda ou
direita, e o militarismo. Ambos fazem parte de uma mesma família.
Cultura - Ao mesmo tempo que se diz que a democracia retrocedeu na
América Latina, com Hugo Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia,
também se diz que a evolução para o aprofundamento de democracias liberais é
inevitável. Com qual das correntes o senhor concorda?
Montaner - A democracia liberal acabará por se impor porque, ao final, a
realidade sempre acaba se impondo. Agora estão entrando na Venezuela,
provavelmente no Equador e seguramente na Bolívia, governos que são desse
populismo de esquerda estadista, e isso vai fracassar, como sempre
fracassou.
Cultura - E pode custar muitos anos?
Montaner - Pode custar muitos anos, pode liquidar outra geração inteira.
Cultura - A visão internacional do governo Lula é de modernidade, com uma
política econômica liberal, distante de Chávez. Internamente, no entanto, se
fala em ataques à liberdade de imprensa e num aparelhamento de Estado sem
precedentes. Quem é o verdadeiro Lula?
Montaner - Lula tem um coração populista de esquerda, mas a realidade
brasileira, a estrutura política brasileira com seu Estado Federal e o jogo
de forças políticas do país impedem que ele governe com o coração, e tenha
que governar com a cabeça de Fernando Henrique e de outras forças políticas
que puseram o Brasil numa direção da qual custaria muito trabalho tirá-lo
sem causar grandes confrontos. O que prima em Lula, mais que a moderação, é
a prudência política. E muitas vezes essa prudência joga contra suas
próprias convicções.
Cultura - Poderia citar um exemplo?
Montaner - Creio que Lula gostaria que Chávez entrasse no Mercosul, mas
o parlamento brasileiro resiste. Aparentemente ele tem uma relação muito
boa, no terreno pessoal, com o presidente Bush. Mesmo assim, quando se lê os
papéis do Foro de São Paulo e se vê o grupo que rodeia Lula, não há dúvida
de que, ideologicamente, ele é contrário à democracia liberal. Ele gostaria
que o país fosse muito mais de esquerda e revolucionário, mas ele não pode.
Cultura - A força das elites tradicionais do Brasil tem um papel
importante para conter Lula?
Montaner - Sim. A história do país, o temperamento do brasileiro, mostra
uma história muito mais racional que a da América Latina. É mais difícil
convocar os brasileiros à loucura do que os argentinos ou outro povo da
América Latina.
Cultura - A oposição liberal a Lula é acusada de ser ineficiente, de não
ter conseguido tirar proveito de inúmeros escândalos de corrupção para
abalar o presidente. Já o PT costumava ser implacável quando estava na
oposição. Essa fraqueza da oposição à esquerda é comum na América Latina?
Montaner - Sim, é comum. O nível de agressividade da esquerda é
infinitamente maior que, digamos, o da democracia liberal.
Cultura - Poderia arriscar uma hipótese do porquê disso?
Montaner - Tem a ver com os grupos sociais que formam a esquerda: grupos
que pregam o rancor de classe e que entendem que as diferenças sociais são
conseqüência de uma injusta atitude de seus opositores. A reação a isso é de
uma violência que não se vê na centro-direita liberal, muito mais tolerante.
Além disso, a esquerda pode defender ditaduras repugnantes, como a de
Castro, ou aliar-se facilmente à teocracia iraniana, sem encontrar nenhuma
contradição.
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Octubre 7, 2007
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